Saturday, November 23, 2013

Sobre honestidade e poesia

Talvez seja essa a maior diferença entre o norte e o sul deste continente.
Nortenhos são sinceros e honestos. Eles me falam com todas as letras tudo que há pra ser dito, soletram se preciso for, e se dedicam a colocar a medida certa nas palavras. Não há nada em seus discursos além do necessário, do inteligível. O que me soa como frieza é na verdade eficiência: não há tempo perdido, não há som esbanjado e nem um músculo se move além dos que são necessários para comunicação. Entrando nessa dança, completo 3 luas cheias falando do meu coração partido da forma que lhes é cômoda: perdi alguém, me sinto sozinha.
E talvez seja bem aí que eu não encontre cura.
Porque a latina dentro de mim quer rasgar o próprio peito em praça pública. Quer arrancar a própria pele na tentativa de apagar esse nome que parece se moldar a quem quer que eu me torne. Quero vomitar o sofrimento que é ser rejeitada, e secar todas as veias por onde ainda corre o sangue do coração que bateu por ele. Quero apagar linha por linha as marcas do rosto que sei de cór, os músculos que uma vez me envolveram carinhosamente, os olhos muito azuis que me admiravam de longe, de perto, em silêncio. Quero descrever com gemidos de dor o dia em que esse olhos decidiram não mais me ver e quero me petrificar ao lembrar desse beijo fadado a ser o último. E mais ainda, quero o maldizer, o tornar criminoso, o odiar e me vingar a qualquer preço, adorando pelo avesso. Porque ainda agora, minhas mãos não fazem sentido sem as tuas pra abraçar, meu sono não me descansa sem o aconchego do teu peito e meu próprio sorriso me atormenta por pensar que uma vez você o idolatrou. Quero implorar por uma razão, mas, no fundo, não quero tua razão americana.
Como é que vocês, exímios em dosar os sentimentos nas palavras poderiam entender? Não duvido que também o sentem, mas duvido que se deixem sentir.

Wednesday, November 20, 2013

Those things that you've felt.

Quando ouvi sua voz, tudo dentro de mim se confundiu. Na sua primeira nota tive a urgência de chorar, porque senti que só assim conseguiria diminuir a intensidade do que i had felt. Em alguma outra vida, sentir demais era ser feliz, o violão era alegre e eu e você fazíamos todo o sentido do mundo. E ouvindo as sombras do teu verão tive uma vontade incontrolável de ser transportada pra lá. Queria te desfazer do teu nó, te descomplicar inteiro e caminhar contigo pra essa direção que você não sabe bem qual é. Encontrar você foi encontrar de novo uma voz capaz de me fazer fechar os olhos e esquecer o rumo. 
Exceto que dessa vez sou seu problema, não sua solução.
(nunca achei que)

Esperamos que um dia




Tenho certeza de que o inglês tem sua beleza, mas às vezes queria que fosse possível traduzir palavra por palavra e encontrar a mesma poesia. Carrego, no momento, bastante frustração por não ser capaz de comunicar com a mesma destreza tudo que há dentro de mim, especialmente por palavras sempre terem me provido mais confiança do que imagens. Nesse dias tão estranhos, escondo vazios cada vez maiores e me questiono se satisfazer certas vontades corresponde a privar-me de outras. E essa ausência que abafo todos os dias e que continua a me perturbar todas as vezes que me deito sozinha, me é tão sonora quanto as primeiras vezes do Teatro dos Vampiros.
E ainda assim, a cada fim de dia, quando sento na banheira e sinto a água bater na minha pele, penso que espero que nossas vidas possam se encontrar e alimento adoração pela multiplicidade do se pronome.
Espero que minha vida possa encontrar a si própria, espero que minha vida possa encontrar você.

Wednesday, November 13, 2013

A vida pode ser mais simples?

Completo quase 21 anos me definindo como uma pessoa dramática.
Cresci vendo razão fazer muito sentido pras pessoas, e o fato de eu transbordar sentimentos, manifestar emoção com cada fio de cabelo e sofrer com cada molécula do meu ser, sempre me fez muito diferente. Aos dezesseis, com todo o meu respaldo adolescente, marquei com tinta permanente na minha pele a palavra Hipérbole, numa manifestação de autoridade sobre mim mesma e aceitação daquilo que eu tinha certeza ser parte da minha composição tanto quanto a minha própria derme.
Mas, de lá pra cá, na tentativa de negar tudo que me fazia infeliz, me afastei de todas as minhas certezas. E quando coloquei os pés nesse lado do mundo, procurei por todos os lado por onde me apoiar, porque eu já não tinha nada certo dentro de mim.
E aí, hoje alguém me disse:
If they say you are too dramatic, just be more dramatic. What else can you do?


(é claro que ele falava de arte, não de mim)

Monday, November 11, 2013

Outro G para uma coleção de passados.

Eu te falei, um dia, que uma das coisas que mais me fazia falta em solo americano era que as pessoas não olhavam umas pra outras. Sendo a brasiliana que sou, chega a machucar a falta de olhares atentos quando falo e, principalmente, quando flerto. Você ouviu atentamente, sem me olhar nos olhos.
Naquele sábado, já às 4 da manhã, te abri a porta e assisti teus passos lentos pelo corredor. Eu não pude evitar te dizer o quanto eu gostaria de ter aquela cena registrada pra sempre e quanto essa memória ainda me serviria de muita inspiração. Tuas botas de combate imediatamente te guiaram de volta pra minha porta, e quase senti tua pele de tão perto que deixamos nossos rostos se encontrarem. Teus olhos finalmente encontraram o caminho pros meus, e a intensidade desse encontro me roubou o ar por um segundo.
But there's a moment, there's always a moment. I can do this, I can give into this, or I can resist it. (e você provavelmente odeia Closer, hater.)
Te mandei pra casa, pro sorriso doce da tua namorada alta e loira. Pra cama que ela divide contigo todos os dias e pro chá que ela ama e que você detesta.
E, com muitíssimo arrependimento, acordei sozinha.
Você parece ter decidido resistir também, e não ter mais o conforto da tua companhia me levando pra casa me parte o coração duas vezes por semana. Há duas ou três noites, dividi a cama com um loiro e alto também, e me perguntei se de manhã você também acordou com a sensação de que gostaria de cabelos mais escuros ocupando o travesseiro ao lado.

Thursday, November 7, 2013

Amor é meu assunto preferido

Cheguei numa tarde de segunda feira, na terça me comprei um número americano. Na quarta lhe respondi um e-mail com meu número e a notícia de que dividíamos a mesma cidade mais uma vez. Vi seu cabelo surpreendentemente longo de longe naquele dia de verão no parque. Você me abraçou e na manhã seguinte, dividindo a cama com teu corpo quente, pensei comigo: We fit.
We didn't. I didn't.
Tua lógica de advogado não abriu espaço pra menina que eu sou. Pras minhas lágrima que você nunca viu, ou pra intensidade da bipolaridade que você nunca presenciou. Você decidiu que não havia sentido em me deixar entrar na tua vida, porque eu tava perdida na minha própria. E dia após dia eu te vi mais longe de mim. Te senti escorregar por entre meus dedos e te vi deixar pra trás com tanta facilidade tudo que eu guardei como um tesouro. Tuas palavras não fazem mais parte do meu dia, e todas as vezes que saio de casa, rezo pra não precisar olhar nos seus olhos por acaso.
Eu cheguei em Chicago numa tarde de segunda com a esperança de refazer tudo. De refazer à mim mesma. Mas você me sorriu tão doce, que esqueci de vestir minha armadura, e ainda hoje eu tento me curar das feridas que você deixou.
Construo a minha muralha ainda mais forte, agora. E com camadas de cimento frio, cubro o espaço que você deixou.