Há tanto dentro de mim que eu quero compartilhar. Mas que eu quero livre.
Enquanto você sentava do outro lado da mesa me contando essa verdade que a gente pareceu repetir por horas e horas ao longo desse fim de semana, eu pensava no quanto eu queria tocar a sua pele tatuada, a sua barba loira. Meu desejo transbordava enquanto eu encarava seus olhos muito azuis que se distraíam com as margens da nossa mesa, fugindo do desconforto do momento que a gente compartilhava. Você me mostrava tua tatuagem de noivado e me contava dos seu amigos já pais, resignados a uma vida de todos os arrependimentos que você não gostaria de ter, e eu pensava na solidão que era você deixar mulheres pra trás em busca da liberdade que teus amigos não tem. Na ironia que é ser tão feliz, mas tão sozinho. A sua pele tatuada poderia ser qualquer uma – eu concluí nua, deitada na sua cama de hotel e sentindo saudades de outra pele ainda. Quando eu fechava os olhos, eu quase conseguia sentir o cheiro do amor que eu tinha por aquele outro norte americano, e eu pensava se você também tava pensando que eu era uma versão de outra pessoa que você já amou muito. Se meus cabelos longos e escuros também te lembravam de uma vida que não existe mais que em memória. Enquanto você se perguntava se estava satisfeito com a sua vida aos 33, eu me perguntava se eu vou estar satisfeita com a vida aos 33 que eu projeto, uma em que eu possivelmente também me espalharia por um número desnecessariamente grande de quartos de hotéis. E assim nos deixamos passar -contáveis- horas: respirando das mesmas inquietações, mas em fragmentos de mundos que nunca realmente se entrelaçaram. Talvez exceto por uma breve noite em Buenos Aires cinco anos atrás. Seguimos sozinhos, separados por não só uma fronteira geográfica que provavelmente nunca mais vai ser cruzada com o intuito singular de refazer esse encontro, mas por uma lealdade muito grande a esse nosso caminho que fica cada vez mais privado...