Sunday, December 15, 2013

Sobre errar

Quando cheguei em Chicago, queria me esconder do mundo. You see, nos últimos anos percebi que meu lugar era todo lugar em que eu fosse passageira, em que eu não visse a mesma face duas vezes e em que não importasse muito o meu comportamento, atitude, ou mesmo quem eu fosse. Ser anônima me dava a liberdade de ser eu mesma, me livrava de expectativas: e assim eu me espalhei por lugares vários e vivi os dias mais felizes da minha vida, sem nenhum exagero. E quando cheguei nessa cidade, com as maiores malas da minha vida, senti o peso do permanente. O peso de ter uma rotina, de passar todos os dias pelos mesmos lugares, de ser vista de novo e de novo. Enquanto todo mundo procurava conexão e conforto, eu me vi procurando anonimato no lugar que eu deveria chamar de casa por alguns anos ainda. Enquanto todo mundo procurava reconhecimento, eu busquei não ter voz, não ter presença, não ser ninguém.
E o por que é bem simples. Sempre tive medo de errar, de não ser boa o bastante pra corresponder às expectativas (muitas) que as pessoas criam sobre mim, de não preservar a imagem impecável que criei ao longo dos anos. Não me permito ser ruim em nada, e encontro prazer em ser muito boa em alguma coisa. E ao longo de alguns anos de terapia, descobri que essa é a fórmula ideal pra infelicidade. Daí, em um dia ainda de verão, durante a recepção de novos alunos, um discurso fez todo um auditório de pessoas como eu sentir arrepios:

Fail. Fail often. Fail fearlessly. Fail smart. Fail miserably. Fail joyously. Fail knowingly. Fail Forward.

Me permiti, nesse semestre, falhar muito mais do que me permiti durante toda uma vida. Derramei muitas lágrima enquanto destruía aos poucos a pessoa que fiz tanta questão de ser, e ouvi várias e várias vezes o quanto eu ainda deveria trabalhar pra ser quem eu desejo ser. Mas termino esse período mais resistente, mais verdadeira e muito, muito grata por nunca ter ouvido uma palavra que não fosse de incentivo sobre estar aqui.
Obrigada.

Saturday, December 7, 2013

Pañuelo

Não vim pra cá atrás de ti, guarde essa certeza. Não piso em solo americano esperando receber de novo o teu amor, e não caminho pelas ruas do centro esperando encontrar de novo seus olhos. O mesmo mundo que pareceu tão pequeno quando dividíamos a cama em outro continente agora parece gigantesco, cheio de espaços que eu e você nunca mais precisamos compartilhar.

Sunday, December 1, 2013

Saudade nunca vai ser clichê

Uma vez um professor de história, daqueles que tira suspiros de meninas de 15 anos, me disse que assim como governos, as pessoas têm a língua que merecem. Em tcheco, há litost, em russo, há toska. Em português, há saudade. E tenho certeza absoluta que mesmo sendo todos seres humanos, compostos da mesma matéria, dividindo a mesma anatomia, esses sentimentos tem sentido único pra tchecos, russo e pra mim.
O cheiro dele, os pôres-do-sol no cerrado, os dias de praia catalana, eles são uma coisa só dentro de mim, um nó na garganta que só faz sentido em português. Atravesso dias solitários com muito menos dor, muito menos raiva. Mas muito, muito mais saudade.